A
análise crítica da economia contemporânea, se quiser manter-se
intelectualmente relevante, não pode prescindir de revisitar os
fundamentos da economia política clássica. No entanto, esse retorno não
deve ser meramente exegético, mas reconstrutivo: é preciso interrogar
não apenas o que Marx disse sobre Smith e Ricardo, mas também os limites
de sua crítica quando confrontada com as transformações institucionais e
tecnológicas do capitalismo recente. Este texto propõe, nesse sentido,
um redesenho do processo crítico marxiano, mediado pelas contribuições
sociológicas de Max Weber e pelas reflexões histórico-filosóficas de
Cornelius Castoriadis, aplicando esse aparato conceitual à análise do
metaverso enquanto espaço de produção e circulação de valor.
É
bem conhecido o argumento de Marx de que os economistas clássicos, em
especial Smith, não compreendiam a natureza da mais-valia, tratando-a
como simples acréscimo de valor sob a forma de renda. A crítica marxiana
revela que a mais-valia não é apenas um excedente: ela constitui o
próprio motor da reprodução ampliada do capital. Ao capturar parte do
valor gerado no processo de trabalho, o capital se perpetua,
alargando-se em ciclos sucessivos de produção, valorização e
reinvestimento.
Entretanto, como observou Weber, essa análise
permanece economicamente centrada e ignora a imprescindível sustentação
institucional do mercado. O capital não circula em um vácuo jurídico;
ele depende de leis, contratos, sistemas de propriedade e garantias que
asseguram a previsibilidade das trocas. Onde a violência substitui a
norma, o valor é corroído, e a mais-valia perde sua funcionalidade como
princípio de acumulação estável. A propriedade sem respaldo jurídico não
é capital — é posse contingente.
Castoriadis, por sua vez,
alarga ainda mais o escopo da crítica ao lembrar que a história
econômica não é o produto de uma mecânica inevitável de leis racionais. A
economia é sempre atravessada por formas simbólicas e institucionais
que não derivam exclusivamente da lógica do interesse material. O
imaginário social instituidor é tão fundamental quanto os determinantes
econômicos: o valor é também uma construção cultural.
Diante
desse arcabouço conceitual, impõe-se a necessidade de uma análise
crítica do metaverso — não enquanto tecnologia ou infraestrutura neutra,
mas como fenômeno institucional e histórico dotado de exigências
próprias. Os discursos entusiásticos sobre o metaverso tendem a
concebê-lo como mera ferramenta adaptável às finalidades de qualquer
agente econômico. Contudo, esta leitura negligencia o fato de que o
metaverso não se limita a replicar relações produtivas existentes: ele
as reconfigura, estabelecendo novas formas de mediação e novos regimes
de valor.
Considere-se, por exemplo, o caso de uma empresa
automobilística que deseje inserir seus produtos no metaverso. No
contexto da economia tradicional, a relação entre essa empresa e seus
consumidores é relativamente direta: veículos são produzidos,
distribuídos e vendidos em um circuito delimitado por canais logísticos e
publicitários específicos. No metaverso, essa lógica é radicalmente
transformada. Os produtos não são mais apenas objetos utilitários, mas
representações digitais, dotadas de atributos simbólicos e performáticos
próprios. Sua atratividade, portanto, não depende apenas de sua
funcionalidade, mas de sua inserção em uma ecologia de significados
partilhados, estéticas, interações e sistemas de engajamento que excedem
a lógica industrial convencional.
Para que tais produtos se
tornem visíveis, desejáveis e funcionalmente integrados ao ambiente
digital, uma vasta cadeia de valor deve ser mobilizada: desenvolvedores
de ambientes tridimensionais, artistas digitais, curadores de
experiências, moderadores de comunidades, operadores de servidores,
algoritmos de indexação e recomendação, entre outros agentes invisíveis
ao consumidor final. Essa cadeia não é meramente instrumental — ela é
produtora de valor. O metaverso, ao articular essa rede, apropria-se da
mais-valia gerada em sua operação, funcionando como plataforma de
captura e redistribuição assimétrica desse valor.
A empresa
automobilística, ao integrar-se a esse sistema, não atua isoladamente:
ela se inscreve em uma lógica em que o valor de seu produto depende da
manutenção de um ecossistema complexo, cuja infraestrutura e dinâmica
ela não controla plenamente. Se não internalizar os custos associados à
produção de presença digital, ou se não encontrar mecanismos para
rentabilizar sua participação, essa empresa ocupará, no metaverso, uma
posição estruturalmente análoga à do trabalhador descrito por Marx no
século XIX: alguém que contribui para a geração de mais-valia, mas que
não detém os meios de sua apropriação.
O metaverso, portanto,
longe de ser uma simples ferramenta ou plataforma tecnológica, é uma
nova configuração institucional do capitalismo contemporâneo. Ele
demanda uma crítica que vá além da oposição simplista entre tecnofilia e
tecnofobia, e que seja capaz de repensar as categorias fundacionais da
crítica econômica. Valor, trabalho, propriedade, mais-valia, consumo e
mediação simbólica — todas essas categorias devem ser revisitadas à luz
de sua reconfiguração digital.
Em última instância, a crítica do
metaverso exige uma articulação entre a economia política marxiana, a
teoria sociológica weberiana e a filosofia da história de Castoriadis.
Só assim será possível compreender como o capital se reinscreve nos
domínios do virtual — não como simples transposição, mas como reinvenção
histórica, institucional e imaginária de seus próprios modos de operar.
O Metaverso e a Mais-Valia Digital
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